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Perder a visão foi uma das
melhores coisas que me
aconteceu na vida”, diz
Jorge Gonçalves.
Surpreendente? Só para quem
não se senta numa tarde de
sol a conversar com ele.
Cego desde os cinco anos,
Jorge tornou-se entretanto
pianista profissional. Diz
que “A Paixão Segundo São
João”, de Johann Sebastian
Bach, é a sua peça
preferida. Explica que foi a
polifonia, tanto quanto a
possibilidade de dispensar a
partitura, que o fez optar
pelo piano em vez da trompa,
que a certa altura
experimentou. Fala dos
tempos de Paris e de como,
apesar de tudo, a
competitividade entre jovens
candidatos a músicos foi
muitas vezes intercalada por
inesperados momentos de
solidariedade – e fala de
cada uma dessas coisas com
um discurso articulado, um
léxico rico, ideias
reflectidas para além da
forma perfeita. Tem 23 anos
e uma licenciatura em piano.
Toca em concertos com
orquestra, recitais a solo
por todo o País, galas de
alerta para os problemas dos
deficientes. E é invisual.
“Como Ray Charles ou Stevie
Wonder”, podia dizer-se.
“Como muitos outros, músicos
ou não”, diz ele.
“Enquanto
tive visão, vivia num
inferno. Tinha dores
fortíssimas nos olhos,
sobretudo quando olhava para
o sol, e passava imenso
tempo internado. Quando
perdi a visão, aos cinco
anos e tal, pude finalmente
livrar-me disso”, explica.
Com um glaucoma congénito,
patologia que se centra no
atrofiamento no nervo
óptico, Jorge Gonçalves tem
na verdade dois olhos
capazes de ver, mas já não
consegue que a informação
chegue ao cérebro e seja
efectivamente processada em
visão. A irmã, mais velha
quatro anos, sofre do mesmo
problema, embora veja alguma
coisa – e a coincidência da
deficiência nos dois irmãos
significa necessariamente
que ambos os progenitores
são portadores da doença,
embora vejam os dois
normalmente. “Se a cegueira
levou à música, isso já não
posso dizer em absoluto”,
explica Jorge. “Talvez sim,
talvez não. É difícil
separar uma coisa da outra,
pois todos nós vimos de um
determinado con-texto. Como
cego, tenho o ouvido mais
desenvolvido e isso
naturalmente ajudou. Mas a
verdade é que foi a minha
irmã quem começou por
aprender piano e foi
ouvindo-a tocar que eu me
interessei. E, de qualquer
forma, tenho a necessidade
básica de exprimir-me como
artista, não como
deficiente.”
Incentivado
pelos pais, uma efermeira e
um tenente-coronel com
especial apreço pela
cultura, Jorge Gonçalves
tomou pela primeira vez
contacto com o piano aos
seis anos. Aos nove, quando
vivia com os pais em Tancos
(o pai estava destacado na
respectiva Base Aérea),
tentou entrar para o
Conservatório Regional de
Tomar. “Não me aceitaram
logo. Foram esses os
primeiros problemas com que
me deparei: não quererem
aceitar-me como aluno.
Aconteceu em Tomar e
aconteceu depois em Coimbra:
rejeitavam-me, ouviam-me
tocar e, então sim,
aceitavam-me”, conta. “Na
verdade, não levo a mal. As
pessoas têm todas muito medo
da diferença. São
preconceitos naturais. Mas é
preciso lutar contra eles,
de qualquer forma.” E os
estudos prosseguiram, de
Tomar ao Conservatório de
Música de Coimbra, deste à
École Normale de Musique de
Paris Alfred Cartot.
Iniciado nos estudos em
1992, Jorge Gonçalves
concluiu o Curso Geral em
2001, em regime articulado
com o ensino secundário, o
Diploma de Ensino em 2002 e
o Diploma Superior de Ensino
em 2004.
Desde então,
é pianista profissional.
Realizou recitais em locais
tão diversos como o Porto ou
o Fundão, Castelo Branco ou
Sintra, entre muitos outros.
Tocou como solista do
Concerto de Grieg em três
ocasiões diferentes,
nomeadamente com a Banda
Sinfónica da Guarda Nacional
Republicana e com a Banda de
Música da Força Aérea
Portuguesa. Foi a programas
de televisão e à Gala de
Abertura do Pirilampo
Mágico, em 2005, de cuja
campanha foi um dos rostos.
“Faço sobretudo concertos.
Ou tenho feito concertos, o
que é mais bem dito. Sou um
prestador de serviços, no
fundo, e só espero poder
continuar a sê-lo”, explica.
“Vivo com dificuldades, mas
sobrevivo. Se quisesse
ganhar dinheiro, não
escolhia esta profissão. Às
vezes os meus pais têm de
ajudar-me. Mas mantenho-me à
tona de água. E faço o que
gosto. Nunca me arrependi da
opção que fiz.”
Recentemente, e depois de
uma experiência a viver
sozinho em Lisboa, voltou
para Coimbra. Tinha saudades
dos pais, dos amigos, das
rotinas, dos lugares, dos
objectos. Em Paris, chegou a
ter a mesma sensação de
solidão e abandono – mas
nesse caso resistiu. “Estive
lá três anos sozinho, o que
foi ao mesmo tempo
enriquecedor e difícil.
Primeiro porque a vida de
emigrante é cheia de solidão
e de sofrimento. Depois
porque o curso era exigente,
cheio de competitividade,
com um grupo de colegas que
incluía alguns dos melhores
pianistas do mundo da minha
idade. Foi preciso dar um
salto qualitativo muito
grande”, explica. “Mas
acabei por fazer grandes
amigos, que permanecem até
hoje. Vivia numa residência
de músicos e, a certa
altura, começámos a
ajudar-nos uns aos outros.
Para além disso, conheci
muitos portugueses.”
Hoje, em
Coimbra, ensaia uma média de
seis horas por dia, sete
dias por semana. E embora
goste dos românticos,
nomeadamente de Grieg,
explica que é Bach o seu
favorito. “Passo 60 por
cento do meu tempo a tocar
Bach. Os outros 40 é que são
para os românticos. Gosto
muito do Barroco e acho que
Bach é o sol da música, o
seu centro gravitacional, o
homem que trouxe à música
uma visão mais elevada,
universal. Mais: como ele
escreveu sobretudo para
órgão, cravo e clavicórdio,
os recursos do piano moderno
permitem-nos quase
reinventar a sua obra,
valorizando-a”, diz. Tem
sobretudo quatro referências
entre os grandes intérpretes
do mundo: Sviatoslav Richter,
que considera “o manual da
interpretação”; Maria João
Pires, que diz ter “o som
mais bonito”; Glenn Gould,
em quem encontra a perfeita
“reivenção do ordenamento” e
Rosalyne Tureck, que gostou
de ver “separar as
harmonias”. Em Bach, gosta
principalmente das
‘Paixões’, entre elas de São
João. A ‘Arte da Fuga’ ou os
‘Concertos de Brandenburgo’
são outras das suas obras
predilectas.
“Ninguém
toca piano com os olhos, mas
com a cabeça. E cabeça todos
nós temos”, diz. Se o
comparam a Ray Charles ou
Stevie Wonder, fica
indiferente. Admira-os
sobretudo pela música, muito
mais do que pela cegueira.
Principalmente Ray Charles.
“Foi uma pessoa que viveu
numa América difícil, cheia
de contrariedades, e que
conseguiu apesar disso
encantar multidões. Mas não
me refiro especialmente à
cegueira. As pessoas cegas
podem fazer as mesmas coisas
do que as outras”, explica.
E apesar da sua propensão
para a música erudita, faz
questão de vincar que também
a música popular o encanta.
Desde que boa, claro.
“Aquilo de que gosto é da
qualidade. E há música boa
em todos os estilos. O Ray
Charles, por exemplo, foi de
facto um grande músico. Pôs
grande humanidade na música.
É admirável.”
A PAIXÃO
DA TROMPA
Jorge
Gonçalves passa metade do
dia a ler em Braille, de
literatura diversa às
partituras de música, e a
outra metade a tocar. Em
1995, quando estudava há já
três anos, decidiu alargar a
sua acção do piano à trompa.
“Precisava de ter a noção do
canto, porque essa é a
essência da música, a
expressão mais natural do
ser humano sob a forma de
música. Os grandes
instrumentistas são aqueles
que conseguem sublimar a voz
humana noutras realidades e
a trompa, como outra
expressão da voz humana,
podia dar-me uma noção do
sopro e da respiração, por
exemplo”, explica.
“É o meu
instrumento preferido,
aquele que tem o timbre mais
bonito. Ainda hoje, quando
ensaio com uma orquestra,
peço sempre aos trompistas
que toquem um pouco para
mim. Mas a questão é que, ao
contrário do piano, a trompa
exige partitura para se
poder tocar numa orquestra.
O piano toca-se de cor, mas
a trompa não: tem de se ler
e tocar ao mesmo tempo. E
isso, naturalmente, é uma
coisa impossível para um
cego”, explica.
Garante,
porém, não estar arrependido
da opção pelo piano. A
polifonia (possibilidade de
extrair vários sons em
simultâneo, inexistente na
trompa) é a grande vantagem.
FICHEIRO
RNH N.º 29
Nome: Jorge
Gonçalves
Idade:23
anos
Naturalidade: Coimbra
Profissão:
Pianista
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