Jorge Gonçalves

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JORGE GONÇALVES

Apesar de cego, nunca desistiu de ser pianista

Nasceu em Coimbra há 21 anos com um problema de visão grave; no entanto só aos 5 anos o glaucoma congénito lhe retirou definitivamente a luz do olhar. "Eu e o meu marido somos portadores assintomáticos da doença. Por isso temos 25% de probabilidades de termos filhos doentes. Tivemos azar: a nossa filha só vê 50% e o Jorge é completamente cego", desabafa a mãe, Lina Gonçalves.

Consola-se com o facto de o filho ter visto até aos 5 anos, o que o ajuda a construir imagens reais. "Caiu-nos o mundo em cima, mas foi só uma semana, chorámos muito e depois foi o recomeço. O Jorge, apesar de ter ficado cego, teve um percurso e uma evolução física e psicológica normal". A mãe sabe que a visão faz falta, mas tem consciência de que o filho tentou colmatar as dificuldades com os outros sentidos. "É um lutador. Como perdeu a visão muito cedo, habituou-se desde logo a outra forma de viver a vida", sublinha.

Jorge não se lembra de tudo o que viu, mas nunca mais se esqueceu das cores nem da imagem dos aviões a aterrar e a descolar, que o pai, oficial da Força Aérea. lhe mostrava quando era pequenino. "As imagens que me acompanham até hoje são a luz do sol e as diferentes cores do céu, as nuvens, o pôr-do-sol, crepúsculo, a noite." E regozija-se com o facto de ser um dos raros cegos a ter a verdadeira percepção de um arranha-céus. "Fui aos Estados Unidos com dois anos e meio e ainda me lembro dos táxis amarelos e de estar no topo do Empire State Building."

Até aos 18 anos Jorge nunca deu um passo sozinho em Coimbra. O pai e a mãe revezavam-se para o levar à escola, ao liceu e ao conservatório. "Sem livros em Braille, éramos nós que lhe líamos as matérias todas e o ajudávamos a estudar.". Quando a música entrou na vida do jovem pianista, aos 9 anos, era a irmã que lhe fazia a leitura das pautas. Jorge fez o liceu e o conservatório de Coimbra em simultâneo, mas aos 18 anos sentiu que Portugal era pequeno para as suas aspirações e foi para Paris estudar numa das melhores escolas de piano do mundo sem ajudas de ninguém. "Esse foi o momento mais difícil das nossas vidas. Deixar um filho cego, que nunca fez nada sem o nosso apoio, num país distante foi uma angústia enorme", revela a mãe, sem se queixar dos enormes sacrifícios da família. "Um dos nossos ordenados era para pagar a escola do Jorge".

Apesar de ter chegado a França sem saber andar sozinho na rua, hoje, graças a um moderno GPS comandado por voz, Jorge Gonçalves consegue deslocar-se sozinho. Em breve os pais vão comprar-lhe uma sofisticada bengala, que vibra à proximidade de obstáculos. "O meu maior sonho é que o meu filho seja autónomo e que viva, sem o apoio de ninguém, com o trabalho dele. Foi para isso que lutámos e o preparámos. É cego mas tem mãos e cabeça para trabalhar", concluiu a mãe, enfermeira na Maternidade Daniel de Matos, em Coimbra.

Sonhos de um músico

Três anos depois regressou a Portugal com os seus estudos superiores concluídos. "O meu trabalho a nível de piano é igual ao dos outros pianistas, com mais limitações mas também com mais vantagens!", e explica quais: a audição, o ouvido e, sobretudo, o sentimento. "Tenho uma relação mais íntima e intimista com o piano e com a música." Consciente de que a formação de um pianista é muito longa, sonha com o seu regresso a Paris para evoluir ainda mais. Até lá prepara-se com todo o empenho para o concerto de Grieg, em que será o único solista ao lado da conceituada banda de 92 elementos da GNR, numa gala que terá lugar a 11 de Maio no Teatro Nacional de são Carlos. Além deste convite, que apanhou de surpresa o jovem pianista, foi convidado para fazer três concertos em três cidades brasileiras e na Europa.

"Foi muito difícil a minha adaptação em Paris, senti muito a solidão e vivi muitas angústias. A maior recompensa para os meus sacrifícios foi voltar a casa com o diploma com que tanto sonhei e ter propostas de trabalho". Jorge anseia trabalhar, o mesmo desejo que qualquer jovem tem depois de acabar um curso.

Texto de Palmira Correia para a revista Activa, n.º 173 de 2005

 

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